O Orkut foi
para muitas pessoas a primeira grande experiência marcante com a
internet. A primeira vez como usuário ativo a fazer parte da Rede – e
sofrer as conseqüências. Temos que aprender a conviver.
Por Julio Daio Borges.
Talvez
como nenhum outro site antes, o Orkut é uma realidade para os
brasileiros hoje. A importância que eu vejo no Orkut transcende
qualquer julgamento moral (do comportamento das pessoas lá dentro) e
qualquer opinião editorial (do que é publicado lá nas páginas).
A
importância que eu vejo no Orkut está no fato de que, para muitas
pessoas, ele foi a primeira grande experiência – real de profunda – de
“virtualidade”. A primeira experiência (traumática), marcante, com a
internet. A primeira experiência de se colocar na Rede, de fazer parte
Dela – e de sofrer as conseqüências.
Porque
existe uma diferença enorme entre ser um usuário passivo e um usuário
ativo de internet. O passivo é aquele que lê, que timidamente reage,
que até envia um e-mail de vez em quando. Já o ativo não se conforma em
assistir à cena e vaiar ou bater palmas, ele se sente instado pelo que
encontra na WWW e quer participar da sua construção.
O usuário
passivo não corre praticamente nenhum risco: ele quase não se expõe,
ele não pode ser encontrado, ele olha para o abismo mas o abismo não
olha de volta pra ele. Já o usuário ativo sabe que, depois de um certo
tempo, tudo é possível: ele deixou uma parcela considerável de si mesmo
na Grande Rede, ele não é mais um anônimo que pode se esconder Dela,
ele está exposto e ele descobre, da melhor ou da pior maneira, que
outras pessoas vão reagir...
Eu estou na
internet desde 1998-99 – como usuário ativo – e não me espantam, em
absoluto, as histórias tristes que ouço por aí de “orkuticídio”. É
típico, e todo mundo, que tem uma relação adulta com a World Wide Web,
passa por isso. O espaço da internet é público e qualquer pessoa que
coloque lá a sua “cara”, vai estar suscetível ao escrutínio – e às
opiniões nem sempre favoráveis – de outros internautas.
Os seres
humanos, em geral, são egoístas, mesquinhos, invejosos, maldosos e até
bastante agressivos. E não só no Orkut. Acontece que o Orkut é talvez a
única experiência possível de “mídia” ao alcance de muitas pessoas; é a
única experiência de, subitamente, estar em praça pública. (Prepare-se
para receber xingamentos, tomates, ovos podres e até uma certa dose de
cuspe.)
Existem
graus de envolvimento com a internet e cada grau implica em
conseqüências, mais ou menos graves, para a vida real. O e-mail, por
exemplo. Quem nunca brigou por e-mail? Ou pior: quem nunca sofreu
linchamento virtual por e-mail (quando, por exemplo, dentro de uma
lista de discussão, você dá uma opinião mais controversa e um monte de
gente cai de pau em você)?
O próximo
estágio é um fórum constituído ou um grupo. No mundo corporativo, por
exemplo. Eu lembro das respostas (ou mensagens) bombásticas, com cópia
para virtualmente todo mundo, em que alguém (ou mais gente) era
humilhado(a) publicamente. Acontecia no fórum, no grupo, na corporação,
mas as conseqüências ultrapassavam os limites do PC. Quem não passou
por isso alguma vez? O terceiro estágio talvez seja a publicação na
internet, que é a Rede Mundial de Computadores (não podemos esquecer) –
através de um site ou blog, e, para quem não tem acesso a (ou paciência
para com) esses meios, através do Orkut.
A diferença
da internet, para a vida real, talvez seja, justamente, uma diferença
de meio. Pois, na vida social, ou profissional, você certamente
encontra pessoas que não gostam de você, que simplesmente não
simpatizam com você, mas as regras de convivência (ou de boa educação)
não permitem que alguém te apedreje na rua toda vez que você passar. A
pessoa que te detesta vai se conter. (E até a pessoa que te adora vai
se conter, dependendo da ocasião...)
Agora,
imagine um ambiente em que essas regras, de politesse – digamos assim
–, não existem (ou não estão bem estabelecidas). Ou pior: imagine um
“lugar” onde alguém possa te apedrejar anonimamente, como aquele chute
no traseiro que você recebe mas não sabe, exatamente, de onde veio. É a
internet. E na internet, em princípio, não existe polícia pra te
defender. (Defender você dos loucos, principalmente...)
Porque na
internet, além dessas questões todas, existe um outro fenômeno
acontecendo. Na vida real, você tende a circular nos meios em que as
pessoas são mais ou menos iguais a você: têm, mais ou menos, os mesmos
valores; reagem, mais ou menos, da mesma maneira a determinadas
situações; não vão, normalmente, surpreender você (para o mal ou para o
bem). Na internet, isso necessariamente não acontece. Mesmo que você
descubra os sites (“locais”, em inglês) que a sua turma freqüenta... Na
internet, não funciona assim: em geral, na Web não existem espaços
“fechados” pra ninguém. Não há as tradicionais “barreiras” que, na vida
social, limitam o acesso a pessoas muito diferentes de você – seja pelo
dinheiro, seja pela idade, seja pela cor ou raça, seja pela educação,
seja pelo currículo, seja pelo que for. Ou alguém – para voltar ao
nosso exemplo – é “barrado” no Orkut porque é pobre, velho (ou muito
moço), preto (ou pele vermelha), analfabeto, desempregado ou feio?
Então, na
internet, você encontra gente de todo tipo. E gente doente. Por quê?
Por que parece que, na internet, existe mais gente doente do que em
outros meios? Ora, porque essa gente – doente –, que você vê na
internet, raramente iria te abordar na vida real – é gente com
problemas, inseguranças, traumas e defeitos. Não é gente que entra,
senta e cumprimenta. É gente que não se relaciona. (Minimamente.) É
gente obsessiva que, de repente, pode ver você – no Orkut – e pode se
apaixonar por você, e pode, no instante seguinte, odiar você e querer
acabar com você. Existe esse tipo de gente. Eu já encontrei... Vááárias
vezes. Não existe camisa de força para os louquinhos da Net. Como não
existem barreiras – felizmente – para gente diferente, que, em outros
ambientes, sofreria preconceito. (E, graças a Deus, eu encontrei mais
gente desse último tipo do que do primeiro...) Na internet, às vezes
parece que você está nas mãos dos loucos – mas, com o tempo, você
aprende a se defender. Os loucos – por mais “loucos” que se pretendam –
sempre se comportam da mesma maneira. E você aprende a reconhecê-los.
(No Orkut, também.)
Assim,
resumindo a ópera, eu obviamente não acho que o Orkut seja um mal em
si. É apenas mais uma ferramenta. Como eu, evidentemente, não acho que
a internet seja um mal em si. (Hoje eu posso afirmar sem medo: é burro
que diz isso; ou não tem experiência o suficiente para saber...) Por
isso, com toda a sua superficialidade, com toda a sua mediocridade, eu
dou importância ao Orkut no Brasil. A humanidade, em grande parte, é
superficial e medíocre. Porque seria diferente numa mídia de plena
democracia, como a internet?
Como
entusiasta da Grande Rede, aliás, eu acho que as pessoas têm mais é que
se expor e sofrer as conseqüências. Para amadurecer as suas idéias
sobre internet. Já que, a meu ver, a internet é, fundamentalmente, uma
experiência. Não é como a caixa passiva da televisão; não é como os
jornais e as revistas que, no máximo, você amassa e joga fora. A
internet é um pouco de você também. E você – seja através do Orkut,
seja através de outra ferramenta – tem de aprender a conviver. [Webinsider]
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